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POEMAS DE NAURO MACHADO


(Edvard Munch)


METAMORFOSE INICIAL

Me crio em nova forma. Não
a que em quartos, corpos
gastos sofrem, tão sós,
pastos vis de um mútuo asco
solitários. Bem os sei também
distendidos, parto enfim
da morte, não a própria
(dificílima),
mas suja e dividida
com outrem. Me crio em nova
forma. Uma, incessante, dia meu, —
árduo, que sobre o piso a
comida de ontem jaz. Sabe a
tarde, loucura, carne ou
legume? No banho seu odor
me penetra — sabre.  Foi e
já não é, coube e já não
cabe: cai, ressequida, lúcido
ódio! Me crio em nova
forma. Não esta, mas outra
maior, dia meu, mais árduo,
onde meus ócios secam,
apodrecidos, no tédio
das palavras.


ENCARGO

Enterrei os cadáveres das meninas
com mãos pelo pranto decepadas.
Enterrei os seios das meninas, como limões
que guardassem os cavalos da carne.


II POEMA ÓRFICO

O passar
do silêncio
é o caminho
para a
            VOZ
O passar
da palavra
é o caminho
para
            NADA


[Poemas extraídos da “Antologia Poética”, de Nauro Machado, publicada pela editora Imago em 1998]


Nauro Machado é um poeta que admiro muito, mas (infelizmente) não é muito conhecido. Faço minhas as palavras de Octávio de Faria, presentes na Antologia Poética de Nauro: “Entre os grandes esquecidos — esses de que poucos, raros mesmo falam nesse nosso País em que todos gostam de cultuar as celebridades, relegando os que quase o são para o mais total esquecimento — e não me canso em insistir nesse desagradável fenômeno — o poeta Nauro Machado figura entre os mais “vitimados”. E não me parece que haja maior e mais triste injustiça... (...)”

Pesquisando sobre este escritor na rede, encontrei uma interessante entrevista dele, que você pode ler clicando bem aqui.

Um abraço, e até a próxima. :) 

Acomodação do Desejo I

Quando abro o corpo à loucura, à correnteza,
reconheço o mar em teu alto búzio
vindo a galope enquanto cavalgas lento
meu corredor de águas.

A boca perdendo a vida sem tua seiva,
os dedos perdendo tempo enquanto
para o amado a amada se abre em flor e fruto
(não vês que esta mulher te faz mais belo?).

A vida no corpo alegre de existir,
fiquei à espreita dos grandes cataclismos:
daí beber na festa do teu corpo
que me galga esse castelo de águas.

(Olga Savary)

[Poema extraído do livro Repertório Selvagem]



Olga Savary... Que posso dizer dela? Sua poesia, repleta de sensualidade e delicadeza, me cativou rapidamente. Lembro que, na biblioteca da UEPA, eu ficava namorando um exemplar do Repertório Selvagem (uma reunião de 12 livros da autora)... De vez em quando, ia visitar aqueles versos novamente... Certo dia, finalmente decidi que a obra tão querida deveria estar na minha coleção, e consegui adquiri-la pelo site da Estante Virtual (que eu recomendo, por já ter comprado lá alguns livros raros).

Ah, um dia desses, descobri uma entrevista da Olga para a revista Marie Claire, que você pode ler clicando aqui, se interessar. A autora fala de literatura (e de como um escritor pode morrer de fome no Brasil...), de sexualidade, de Carlos Drummond de Andrade...

Um abraço, e até a próxima!
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