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Annabel Lee - Edgar Allan Poe

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.


(Tradução de Fernando Pessoa)

(Marc Chagall)

Verde... - Olavo Bilac

Como era verde este caminho! 
Que calmo o céu! que verde o mar!
E, entre festões, de ninho em ninho,
A Primavera a gorjear!...
Inda me exalta, como um vinho,
Esta fatal recordação!
Secou a flor, ficou o espinho...
Como me pesa a solidão!

Órfão de amor e de carinho,
Órfão da luz do teu olhar,
- Verde também, verde-marinho,
Que eu nunca mais hei de olvidar!
Sob a camisa, alva de linho,
Te palpitava o coração...
Ai! coração! peno e definho,
Longe de ti, na solidão!

Oh! tu, mais branca do que o arminho,
Mais pálida do que o luar!
- Da sepultura me avizinho,
Sempre que volto a este lugar...
E digo a cada passarinho:
"Não cantes mais! que essa canção
Vem me lembrar que estou sozinho,
No exílio desta solidão!"

No teu jardim, que desalinho!
Que falta faz a tua mão!
Como inda é verde este caminho...
Mas como o afeia a solidão!

(Olavo Bilac)




Cisnes - Júlio Salusse (1872-1948)

A vida, manso lago azul algumas
vezes, algumas vezes mar fremente,
tem sido para nós constantemente
um lago azul sem ondas, sem espumas.

Sobre ele, quando, desfazendo as brumas
matinais, rompe um sol vermelho e quente,
nós dois vagamos indolentemente,
como dois cisnes de alvacentas plumas.

Um dia um cisne morrerá, por certo.
Quando chegar esse momento incerto,
no lago, onde talvez a água se tisne,

que o cisne vivo, cheio de saudade,
nunca mais cante, nem sozinho nade,
nem nade nunca ao lado de outro cisne.


[Livro dos sonetos: 1500 - 1900. Coleção L&PM Pocket]


Mistério d'amor (Florbela Espanca)





















Um mistério que trago dentro em mim
Ajuda-me, minh’alma a descobrir…
É um mistério de sonho e de luar
Que ora me faz chorar, ora sorrir!

Viemos tanto tempo tão amigos!
E sem que o teu olhar puro toldasse
A pureza do meu. E sem que um beijo
As nossas bocas rubras desfolhasse!

Mas um dia, uma tarde… houve um fulgor,
Um olhar que brilhou… e mansamente…
Ai, dize ó meu encanto, meu amor:

Porque foi que somente nessa tarde
Nos olhamos assim tão docemente
Num grande olhar d’amor e de saudade?!


[Extraído de "Poesia de Florbela Espanca", vol. I, da editora L&PM Pocket]

Poemas de Florbela Espanca (1894 - 1930)


Vulcões

Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal
Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
De neve branca e fria onde o luar se banha.

No entanto que fogo, que lavas, a montanha
Oculta no seu seio de lividez fatal!
Tudo é quente lá dentro…e que paixão tamanha
A fria neve envolve em seu vestido ideal!

No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões…

Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!



Trazes-me em tuas mãos de vitorioso

Trazes-me em tuas mãos de vitorioso
Todos os bens que a vida me negou,
E todo um roseiral, a abrir, glorioso,
Que a solitária estrada perfumou.

Neste meio-dia límpido, radioso,
Sinto o teu coração que Deus talhou
Num pedaço de bronze luminoso,
Como um berço onde a vida me pousou.

O silêncio, em redor, é uma asa quieta...
E a tua boca que sorri e anseia,
Lembra um cálix de túlipa entreaberta...

Cheira a ervas amargas, cheira a sândalo...
E o meu corpo ondulante de sereia
Dorme em teus braços másculos de vândalo...


[Poemas extraídos de "A mensageira das violetas", da editora L&PM Pocket]

Crucificada - Florbela Espanca

Amiga... noiva... irmã... o que quiseres!
Por ti, todos os céus terão estrelas,
Por teu amor, mendiga, hei-de merecê-las,
Ao beijar a esmola que me deres.

Podes amar até outras mulheres!
- Hei de compor, sonhar palavras belas,
Lindos versos de dor só para elas,
Para em lânguidas noites lhes dizeres!

Crucificada em mim, sobre os meus braços,
Hei de poisar a boca nos teus passos
Pra não serem pisados por ninguém.

E depois... Ah! depois de dores tamanhas,
Nascerás outra vez de outras entranhas,
Nascerás outra vez de uma outra Mãe!




Poema cheio de dor. Tocou-me profundamente...


(Para ler outros poemas da Florbela, clique aqui)

O mundo estava no rosto da amada - Rilke


O mundo estava no rosto da amada -
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.

(Tradução de Augusto de Campos)



Amores, Livro Primeiro: 5 - Ovídio

Era intenso o calor, passava já do meio-dia;
      Estendi-me na cama a repousar os membros.
Das janelas, em parte abertas, em parte cerradas,
      Vinha luz semelhante à que há dentro das matas,
À luz mortiça do crepúsculo, após Febo sumir,
      Ou de antes de a noite ir-se sem que seja dia.
A esta luz é que se hão de mostrar as jovens tímidas;
      Nela, o pudor medroso espera achar refúgio.
Eis que chega Corina numa túnica ligeira,
      Cobriam os cabelos seu alvo pescoço;
Assim entrava pela alcova a formosa Semíramis,
      Diz-se, e Laís, a quem tantos homens amaram.
Desvesti-lhe a túnica; de tão tênue, mal contava:
      Ela lutou, entanto, por cobrir-se com
A túnica, mas sem nenhum empenho de vencer:
      Venceu-a, sem pesar, a sua traição.
Ficou em pé, sem roupa alguma, diante dos meus olhos.
      Não havia, em seu corpo, um único defeito.
Que ombros e que braços a mim foi dado ver, tocar!
      Os belos seios, que deleite comprimi-los!
Que ventre mais polido logo debaixo do peito!
      As ancas, que primor! Que juvenil a coxa!
Por que pormenorizar? Nada vi de tão louvável!
      E a nudez lhe estreitei contra o meu próprio corpo.
Quem não sabe o resto? Exaustos, repousamos depois.
      Que mais outros meios-dias prósperos me sejam!

(Tradução de José Paulo Paes, extraída do livro "Poemas da carne e do exílio")


Publius Ovidius Naso nasceu em Sulmona, no ano 43 a.C.. Seu pai, um rico comerciante, desejava para o filho uma profissão rendosa, como a de advogado ou magistrado. Assim, ainda jovem, Ovídio se mudou para Roma, onde foi educado por grandes mestres da filosofia, retórica e gramática. Contudo, o seu amor era pelas letras... Em Roma, em sua rica residência, o artista recebia seus amigos em suntuosas festas. As primeiras obras do poeta, suas elegias amorosas, refletem o clima requintado e erótico em que ele vivia. 

Sua obra retrata a juventude ditosa e galante, que deseja gozar os prazeres sensuais da vida, sem nutrir o amor que atormenta o íntimo.

XXVII (Poema de Dante para Beatriz)

Tão longamente me reteve Amor
E acostumou-se à sua tirania,
Que, se a princípio parecia rude,
Suave agora me habita o coração.
Assim, quando me tira tanto as forças
Que os espíritos vejo me fugirem,
Então a minha frágil alma sinto
Tão doce, que o meu rosto empalidece,
Pois Amor tem em mim tanto poder
Que faz os meus suspiros me deixarem
E saírem chamando
A minha amada, para dar-me alento.
Onde quer que eu a veja, tal sucede,
E é coisa tão humil que não se crê.

(Dante Alighieri)

(Dante e Beatriz, John Waterhouse)

       Dante Alighieri (1265-1321) nasceu em Florença, de uma família de baixa nobreza. Foi soldado, político e poeta. Na verdade, muitas informações sobre sua educação, sua família e suas opiniões são apenas suposições.
    Algumas de suas obras foram a " A Divina Comédia" ( considerada sua obra prima), "Da Monarquia", "O Convívio" e "Vida Nova" (obra da qual extraí o poema acima).
      Ao se traçar uma biografia de Dante, é importantíssimo falarmos de Beatriz Portinari: em 1289, aos nove anos, Dante vê Beatriz e apaixona-se perdidamente, tornando a vê-la só anos mais tarde, quando ela passará a ser a musa inspiradora de sua poesia. Os versos da "Vida Nova" são dedicados à sua amada. Já na "Divina Comédia", é Beatriz que guiará Dante pelo Paraíso (o que consiste numa metáfora: quem melhor que a amada do poeta para "guiá-lo pelo Paraíso"?).
   Entretanto, o amor de Dante nunca pôde ser concretizado: no seu tempo (Idade Média), o casamento era motivado principalmente por alianças políticas entre famílias. Desde os doze anos, Dante já sabia que deveria se casar com uma moça da família Donati. A própria Beatriz se casou com o banqueiro Simone dei Bardi.
      Beatriz, mulher de outro, está presente em todos os versos de Dante; sua esposa e filhos sequer são mencionados em sua obra. Isto resultou num dos maiores adultérios espirituais da história da literatura.
      Em 1290, Beatriz falece repentinamente, deixando Dante inconsolável. Mesmo após a morte da amada, o poeta nunca deixa de amá-la, e ela permanece em sua obra.

Soneto

Necessito de um ser, um ser humano
Que me envolva de ser
Contra o não ser universal, arcano
Impossível de ler

À luz da lua que ressarce o dano
Cruel de adormecer
A sós, à noite, ao pé do desumano
Desejo de morrer.

Necessito de um ser, de seu abraço
Escuro e palpitante
Necessito de um ser dormente e lasso

Contra meu ser arfante:
Necessito de um ser sendo ao meu lado
Um ser profundo e aberto, um ser amado.


(Mário Faustino)

Poema de Mark Alexander Boyd (1563-1601)

De areia a areia, selva a selva eu ando,
Presa da minha frágil fantasia,
Como o vime que o vento vai dobrando
Ou a folha a vogar  na ventania.

Um cego pela mão me está levando,
Que uma criança fútil tem por guia
E uma mulher esguia atrai, nadando,
Nada do mar, mais ágil que uma enguia.

Triste de quem, a vida toda a arar,
Só ara a areia e semeia no ar.

Porém mais triste é aquele que se lança,
Movido pelo ímã do mal amar.
No fogo, atrás de uma mulher de mar,
Guiado por um cego e uma criança.

(Tradução de Augusto de Campos)

O mundo que venci deu-me um amor

"O mundo que eu venci deu-me um amor,
Um troféu perigoso, este cavalo
Carregado de infantes couraçados.
O mundo que venci deu-me um amor
Alado galopando em céus irados,
Por cima de qualquer muro de credo.
Por cima de qualquer fosso de sexo.
O mundo que venci deu-me um amor
Amor feito de insulto e pranto e riso,
Amor que força as portas dos infernos,
Amor que galga o cume ao paraíso.
Amor que dorme e treme. Que desperta
E torna contra mim, e me devora
E me rumina em cantos de vitória... "

Mário Faustino - (1930-1962)

Balatetta

Por não ter esperança de beijá-lo
Eu mesmo, ou de abraçá-lo,
Ou contar-lhe do amor que me corrói
O coração vassalo,
Vai tu, poema, ao meu
Amado, vai ao seu
Quarto dizer-lhe quanto, quanto dói
Amar sem ser amado,
Amar calado.

Beijai-o vós, felizes
Palavras que levíssimas envio
Rumo aos quentes países
De seu corpo dormente, rumo ao frio
Vale onde onde vaga a alma
Liberta que na calma
Da noite vai sonhando, indiferente
À fonte que, de ardente,
Gera em meu rosto um rio
Resplandecente.

No sonolento ramo
Pousai, palavras minhas, e cantai
Repetindo: eu te amo.
Ele, que dorme, e vai
De reino em reino cavalgando sua
Beleza sob a lua,
Encontrará na voz de vosso canto
Motivo de acalanto;
E dormirá mais longe ainda, enquanto
Eu, carregando só, por esta rua
Difícil, meu pesado
Coração recusado,
Verei, nesse seu sono renovado,
Razão de desencanto
E de mais pranto.

Entretanto cantai, palavras: quem
Vos disse que chorásseis, vós também?

(Mário Faustino)
Neste poema, o eu-lírico exprime o desejo de estar com seu amado, e consumar o seu amor... Entretanto, este amado está distante, e só é possível alcançá-lo por meio da poesia e por meio de sonhos. É um poema marcado pelo erotismo ("Palavras que levíssimas envio/Rumo aos quentes países/De seu corpo dormente" ) e pela melancolia, visto que o ser amado é indiferente aos desejos do poeta.
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