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Annabel Lee - Edgar Allan Poe

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.


(Tradução de Fernando Pessoa)

(Marc Chagall)

Primavera - Mário de Lima


Vem, Primavera! Abre o sendal de flores na terra,
Estende o pálio azul no espaço,
lava num beijo o firmamento baço,
traz a magia das luzes e das cores!
Com teus perfumes entontecedores, aromatiza as balsas.
Passo a passo acorda os ninhos
e de teu regaço
lança a mãos plenas rosas, esplendores.
A natureza em júbilo te espera:
aclamando-te os pássaros bisonhos
já se põem a cantar, Mãe da quimera.
E em minh'alma, entre frêmitos risonhos,
em febril disparada,
ó Primavera,
passa a galope o batalhão dos sonhos...


    (The young girl - Sulamith Wulfing)


Mário Franzen de Lima (1886 - 1936) foi um poeta mineiro, nascido em Ouro Preto. Seus versos me encantaram, pela sensibilidade e delicadeza com que foram escritos...

Para ler outros escritos do poeta, no site do Jornal de Poesia, é só clicar aqui.

Para ver mais a fantástica arte de Sulamith Wulfing, clique aqui.

Verde... - Olavo Bilac

Como era verde este caminho! 
Que calmo o céu! que verde o mar!
E, entre festões, de ninho em ninho,
A Primavera a gorjear!...
Inda me exalta, como um vinho,
Esta fatal recordação!
Secou a flor, ficou o espinho...
Como me pesa a solidão!

Órfão de amor e de carinho,
Órfão da luz do teu olhar,
- Verde também, verde-marinho,
Que eu nunca mais hei de olvidar!
Sob a camisa, alva de linho,
Te palpitava o coração...
Ai! coração! peno e definho,
Longe de ti, na solidão!

Oh! tu, mais branca do que o arminho,
Mais pálida do que o luar!
- Da sepultura me avizinho,
Sempre que volto a este lugar...
E digo a cada passarinho:
"Não cantes mais! que essa canção
Vem me lembrar que estou sozinho,
No exílio desta solidão!"

No teu jardim, que desalinho!
Que falta faz a tua mão!
Como inda é verde este caminho...
Mas como o afeia a solidão!

(Olavo Bilac)




Soneto à jovem esposa - Alonso Rocha

Hoje eu te trago, em minhas mãos, guardada,
a gota d’água – a pérola serena –
que eu roubei de uma pálida açucena
recém-aberta pela madrugada.

Louco poeta que sou! (Oh! Doce Amada!)
Em trazer-te essa dádiva pequena.
Culpa as estrelas, culpa a cantilena
do vento. E em nossa alcova penumbrada

dormes. E nem percebes no teu sono
que em teus lábios, fechados, abandono
a lágrima de luz – um mundo pleno.

Não despertes, ririas certamente
se me visses beijando, ingenuamente,
tua boca molhada de sereno.


Soneto - Álvares de Azevedo

Já de morte o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!

Do leito embalde no macio encosto
Tento o sono reter!... já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece...
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!

O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.

Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos por piedade,
Olhos por quem viveu quem já não vive!


(Extraído de Lira dos vinte anos, editora L&PM Pocket)



Ária antiga - Alceu Wamosy

Chora o orvalho da luz sobre a rosa do dia
que se fecha. O jardim todo lembra um altar
para o qual sobe o incenso azul da nostalgia,
e onde os lírios estão de joelhos, a rezar.

Tu cantas para mim. Tua voz, triste e mansa,
vem trazendo, a gemer, dos confins da lembrança,
qualquer coisa de velho, onde a vida se esfume.

Quando a voz adormece um fantasma desperta.
A tua boca é como uma rosa entreaberta
que a saudade acalante e o passado perfume.

E essa velha canção que o teu lábio cicia,
no momento em que a tarde adormece no olhar,
enche o meu coração de uma vaga harmonia,
de um desejo pueril de ser bom, e chorar...




(Pintura de Lauri Blank, extraída de http://blankstudio.com/gallery.asp)

Vênus Anadiomene (Arthur Rimbaud)

Qual de um verde caixão de zinco, uma cabeça
Morena de mulher, cabelos emplastados,
Surge de uma banheira antiga, vaga e avessa,
Com déficits que estão a custo retocados.

Brota após grossa e gorda a nuca, as omoplatas
Anchas; o dorso curto ora sobre ora desce;
Depois a redondez do lombo é que aparece;
A banha sob a carne espraia em placas chatas;

A espinha é um tanto rósea, e o todo tem um ar
Horrendo estranhamente; há, no mais, que notar
Pormenores que são de examinar-se à lupa...

Nas nádegas gravou dois nomes: Clara Vênus;
- E o corpo inteiro agita e estende a ampla garupa
Com a bela hediondez de uma úlcera no ânus.


[Anadiomene - "emergente" (das águas), é atributo de Afrodite, a Vênus dos romanos, nascida da espuma do mar]


(Extraído de "Arthur Rimbaud - Poesia Completa". Tradução, prefácio e organização de Ivo Barroso)


Cisnes - Júlio Salusse (1872-1948)

A vida, manso lago azul algumas
vezes, algumas vezes mar fremente,
tem sido para nós constantemente
um lago azul sem ondas, sem espumas.

Sobre ele, quando, desfazendo as brumas
matinais, rompe um sol vermelho e quente,
nós dois vagamos indolentemente,
como dois cisnes de alvacentas plumas.

Um dia um cisne morrerá, por certo.
Quando chegar esse momento incerto,
no lago, onde talvez a água se tisne,

que o cisne vivo, cheio de saudade,
nunca mais cante, nem sozinho nade,
nem nade nunca ao lado de outro cisne.


[Livro dos sonetos: 1500 - 1900. Coleção L&PM Pocket]


MINHA BOÊMIA (Fantasia) - Arthur Rimbaud

Lá ia eu, de mãos nos bolsos descosidos;
Meu paletó também tornava-se ideal;
Sob o céu, Musa, eu fui teu súdito leal,
Puxa vida! a sonhar amores destemidos!

O meu único par de calças tinha furos.
- Pequeno Polegar do sonho ao meu redor
Rimas espalho. Albergo-me à Ursa Maior.
- Os meus astros no céu rangem frêmitos puros.

Sentado, eu os ouvia, à beira do caminho,
Nas noites de setembro, onde senti qual vinho
O orvalho a rorejar-me a fronte em comoção;

Onde, rimando em meio a imensidões fantásticas,
Eu tomava, qual lira, as botinas elásticas
E tangia um dos pés junto ao meu coração!



[Extraído de "Poesia Completa - Arthur Rimbaud", editora Topbooks, 1995. Tradução, prefácio e notas de Ivo Barroso]

LA BELLE DAME SANS MERCI - John Keats (1795-1821)



Ah! que pode afligir-te, infortunado,
Que assim vagueias pálido e sozinho?
O junco à beira-lago já secou;
Não canta um passarinho.

Ah! que pode afligir-te, infortunado,
De feição macilenta e assim desfeita?
O celeiro do esquilo está repleto,
E finda está a colheita.

Um lírio nessa testa eu bem o vejo,
De suor de febre e de aflição molhado;
E uma rosa que murcha em tua face
Logo terá secado.

Uma dama nos prados encontrei,
Todo-formosa, filha de uma fada:
A cabeleira longa, os pés ligeiros,
A vista descuidada.

Tomei-a em meu corcel de passo lento,
E o dia inteiro nada mais vi, não;
Pois pendida de lado ela cantava
De fada uma canção.

Eu fiz-lhe uma grinalda para a fronte,
E pulseiras e um cinto redolente;
Ela me olhou com ar de quem amasse,
Gemendo suavemente.

Procurou para mim raízes doces,
Orvalho de maná e mel do mato;
E numa língua estranha murmurou:
"Eu amo-te de fato".

Levou-me para a sua gruta mágica,
E com suspiros fundos me fitou;
Fechei-lhe os olhos tristes, descuidados,
- Meu beijo a acalentou.

Na gruta, sobre o musgo, nós dormimos,
E ali sonhei - que triste a minha sina!-
O último sonho que haja eu sonhado
No frio da colina.

Guerreiros, e reis pálidos, e príncipes,
Todos, de morte pálidos, eu vi,
E me diziam: - "Pôs-te em cativeiro
La belle Dame sans merci".

Com o negro aviso, seus famintos lábios
Vi escancarar-se à sombra vespertina;
E despertando me encontrei aqui,
No frio da colina.

E este é o motivo pelo qual eu me acho
Aqui, vagando pálido e sozinho,
Malgrado, seco o junco à beira-lago,
Não cante um passarinho.


(Extraído de "Ode sobre a melancolia e outros poemas", da editora Hedra. Tradução e organização de Péricles Eugênio da Silva Ramos.)

Poemas de Florbela Espanca (1894 - 1930)


Vulcões

Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal
Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
De neve branca e fria onde o luar se banha.

No entanto que fogo, que lavas, a montanha
Oculta no seu seio de lividez fatal!
Tudo é quente lá dentro…e que paixão tamanha
A fria neve envolve em seu vestido ideal!

No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões…

Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!



Trazes-me em tuas mãos de vitorioso

Trazes-me em tuas mãos de vitorioso
Todos os bens que a vida me negou,
E todo um roseiral, a abrir, glorioso,
Que a solitária estrada perfumou.

Neste meio-dia límpido, radioso,
Sinto o teu coração que Deus talhou
Num pedaço de bronze luminoso,
Como um berço onde a vida me pousou.

O silêncio, em redor, é uma asa quieta...
E a tua boca que sorri e anseia,
Lembra um cálix de túlipa entreaberta...

Cheira a ervas amargas, cheira a sândalo...
E o meu corpo ondulante de sereia
Dorme em teus braços másculos de vândalo...


[Poemas extraídos de "A mensageira das violetas", da editora L&PM Pocket]

Equilíbrio - Henriqueta Lisboa




















Estar não estando
no riso e no pranto.
Posso ir sem domínio dentro do possível.
Ser de si o oposto
sem deixar de ser
imóvel movente
que só por angústia
de tempo resvala
para achar o fluxo
do plectro em refluxo.
Pendente da sorte
do imã da força
dos próprios recuos, o pêndulo pende
mediante a tangência
de eflúvios
que estuam
adversos
à inércia.

Crucificada - Florbela Espanca

Amiga... noiva... irmã... o que quiseres!
Por ti, todos os céus terão estrelas,
Por teu amor, mendiga, hei-de merecê-las,
Ao beijar a esmola que me deres.

Podes amar até outras mulheres!
- Hei de compor, sonhar palavras belas,
Lindos versos de dor só para elas,
Para em lânguidas noites lhes dizeres!

Crucificada em mim, sobre os meus braços,
Hei de poisar a boca nos teus passos
Pra não serem pisados por ninguém.

E depois... Ah! depois de dores tamanhas,
Nascerás outra vez de outras entranhas,
Nascerás outra vez de uma outra Mãe!




Poema cheio de dor. Tocou-me profundamente...


(Para ler outros poemas da Florbela, clique aqui)

POEMAS DE NAURO MACHADO


(Edvard Munch)


METAMORFOSE INICIAL

Me crio em nova forma. Não
a que em quartos, corpos
gastos sofrem, tão sós,
pastos vis de um mútuo asco
solitários. Bem os sei também
distendidos, parto enfim
da morte, não a própria
(dificílima),
mas suja e dividida
com outrem. Me crio em nova
forma. Uma, incessante, dia meu, —
árduo, que sobre o piso a
comida de ontem jaz. Sabe a
tarde, loucura, carne ou
legume? No banho seu odor
me penetra — sabre.  Foi e
já não é, coube e já não
cabe: cai, ressequida, lúcido
ódio! Me crio em nova
forma. Não esta, mas outra
maior, dia meu, mais árduo,
onde meus ócios secam,
apodrecidos, no tédio
das palavras.


ENCARGO

Enterrei os cadáveres das meninas
com mãos pelo pranto decepadas.
Enterrei os seios das meninas, como limões
que guardassem os cavalos da carne.


II POEMA ÓRFICO

O passar
do silêncio
é o caminho
para a
            VOZ
O passar
da palavra
é o caminho
para
            NADA


[Poemas extraídos da “Antologia Poética”, de Nauro Machado, publicada pela editora Imago em 1998]


Nauro Machado é um poeta que admiro muito, mas (infelizmente) não é muito conhecido. Faço minhas as palavras de Octávio de Faria, presentes na Antologia Poética de Nauro: “Entre os grandes esquecidos — esses de que poucos, raros mesmo falam nesse nosso País em que todos gostam de cultuar as celebridades, relegando os que quase o são para o mais total esquecimento — e não me canso em insistir nesse desagradável fenômeno — o poeta Nauro Machado figura entre os mais “vitimados”. E não me parece que haja maior e mais triste injustiça... (...)”

Pesquisando sobre este escritor na rede, encontrei uma interessante entrevista dele, que você pode ler clicando bem aqui.

Um abraço, e até a próxima. :) 

O LOUCO E A VÊNUS - Charles Baudelaire

     Que admirável dia! O vasto parque se pasma sob o olho ardente do sol, como a juventude sob a dominação do Amor.
     O êxtase universal das coisas não se expressa por ruído algum; as próprias águas estão como que adormecidas. Bem diferente das festas humanas, esta é uma orgia silenciosa.
     Dir-se-ia que uma luz sempre crescente faz com que mais e mais resplandeçam os objetos; que as flores excitadas ardem de desejo de competir com o azul do céu pela energia de suas cores, e que o calor, tornando os aromas visíveis, os faz subir como fumaças rumo ao astro.
     Em meio, entretanto, a este gozo universal, avistei um ser aflito.
     Aos pés de uma Vênus colossal, um destes loucos artificiais, um destes bufões voluntários encarregados do riso dos reis quando o Remorso ou o Tédio os obceca, vestido com um traje vistoso e ridículo, a cabeça coberta de chifres e guizos, todo amontoado junto ao pedestal, ergue os olhos cheios de lágrimas para a Deusa imortal.
      E seus olhos dizem: "Sou o último e o mais solitário dos humanos, privado de amor e de amizade, e nisto bem inferior ao mais imperfeito dos animais. No entanto, fui feito, eu também, para entender e sentir a imortal Beleza! Ah! Deusa! tende piedade de minha tristeza e de meu delírio!"
     Mas, a implacável Vênus olha ao longe, para não sei o quê, com seus olhos de mármore.


       Esse é um texto lindo, que li no meu primeiro ano do curso de Letras, e queria muito dividir com vocês. Baudelaire era realmente um mestre. 
    A primeira obra que li desse autor foi "As Flores do Mal" (um livro de poemas sensacionais), que conheci por meio da Internet (por isso, acho legal dividir conhecimentos na Internet, porque tem muita coisa que descobri por causa dela). Depois de alguns anos, adquiri o livro...
     Ah, por falar em dividir conhecimentos... Se alguém souber de quem é a maravilhosa escultura acima (e o nome dela também), poderia me responder? É só comentar debaixo desta postagem...
      Um abraço, e até mais!

Acomodação do Desejo I

Quando abro o corpo à loucura, à correnteza,
reconheço o mar em teu alto búzio
vindo a galope enquanto cavalgas lento
meu corredor de águas.

A boca perdendo a vida sem tua seiva,
os dedos perdendo tempo enquanto
para o amado a amada se abre em flor e fruto
(não vês que esta mulher te faz mais belo?).

A vida no corpo alegre de existir,
fiquei à espreita dos grandes cataclismos:
daí beber na festa do teu corpo
que me galga esse castelo de águas.

(Olga Savary)

[Poema extraído do livro Repertório Selvagem]



Olga Savary... Que posso dizer dela? Sua poesia, repleta de sensualidade e delicadeza, me cativou rapidamente. Lembro que, na biblioteca da UEPA, eu ficava namorando um exemplar do Repertório Selvagem (uma reunião de 12 livros da autora)... De vez em quando, ia visitar aqueles versos novamente... Certo dia, finalmente decidi que a obra tão querida deveria estar na minha coleção, e consegui adquiri-la pelo site da Estante Virtual (que eu recomendo, por já ter comprado lá alguns livros raros).

Ah, um dia desses, descobri uma entrevista da Olga para a revista Marie Claire, que você pode ler clicando aqui, se interessar. A autora fala de literatura (e de como um escritor pode morrer de fome no Brasil...), de sexualidade, de Carlos Drummond de Andrade...

Um abraço, e até a próxima!

O mundo estava no rosto da amada - Rilke


O mundo estava no rosto da amada -
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.

(Tradução de Augusto de Campos)



Se cada dia cai... - Pablo Neruda

Se cada dia cai
dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

Há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.

(Noite estrelada sobre o rio Ródano, de Van Gogh)


(Extraído de Últimos Poemas (O mar e os sinos) da editora L&PM Pocket. Tradução de Luiz de Miranda)
(Foi intenção de Neruda colocar título em todos os poemas desse livro. Entretanto, não pôde fazê-lo em todos, então foi colocado como título parte do primeiro verso).

Obrigado, violinos - Pablo Neruda

Obrigado, violinos, por este dia
de quatro cordas.
É puro o som do céu,
a voz azul do ar.

(Extraído de Últimos poemas (O mar e os sinos), da editora L&PM Pocket. Tradução de Luiz de Miranda)

(Campo de trigo com corvos, Van Gogh)

(Foi intenção de Neruda colocar título em todos os poemas desse livro. Entretanto, não pôde fazê-lo em todos, então foi colocado como título parte do primeiro verso).

O Corvo - Edgar Allan Poe


Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste, 
Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais, 
E já quase adormecia, ouvi o que parecia 
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais. 
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais. 
     É só isto, e nada mais."
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro 
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
 
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
 
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
 
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
 
     Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo 
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
 
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo:
 
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
 
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
 
     É só isto, e nada mais."
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante, 
"Senhor", eu disse, "ou senhora, de certo me desculpais;
 
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo
 
Tão levemente, batendo, batendo por meus umbrais,
 
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
 
     Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei perdido receando, 
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
 
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
 
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
 
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse os meus ais,
 
     Isto só e nada mais.
Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo, 
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
 
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
 
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.
 
Meu coração se distraia pesquisando estes sinais.
 
     É o vento, e nada mais."
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça, 
Entrou grave e nobre um Corvo dos bons tempos ancestrais. 
Não fez nenhum cumprimento, não parou nenhum momento, 
Mas com ar sereno e lento pousou sobre os meus umbrais, 
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais. 
     Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura 
Com o solene decoro de seus ares rituais.
 

"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado, 
Ó velho Corvo emigrado lá das trevas infernais!
 
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
 
     Disse o Corvo, "Nunca mais".
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro, 
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
 
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
 
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
 
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
 
     Com o nome "Nunca mais".
Mas o Corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto, 
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
 
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento,
 
Perdido murmurei lento. "Amigos, sonhos - mortais
 
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais."
 
     Disse o Corvo, "Nunca mais".
A alma súbito movida por frase tão bem cabida, 
"Por certo", disse eu, "são estas suas vozes usuais.
 
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
 
Seguiram até que o entorno da alma se quebrou em ais,
 
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
 
     Era este "Nunca mais".
Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura, 
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
 
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
 
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
 
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
 
      Com aquele "Nunca mais".
Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo 
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
 
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
 
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
 
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
 
      Reclinar-se-á nunca mais!
Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso 
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais. 
"Maldito", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te 
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais, 
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!" 
      Disse o Corvo, "nunca mais".
"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo", eu disse. "Parte! 
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
 
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
 
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
 
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
 
      Disse o Corvo, "Nunca mais".
E o Corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda, 
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
 
Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha,
 
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais.
 
E a minh'alma dessa sombra que no chão há de mais e mais,
 
      Libertar-se-á... nunca mais!
(Tradução de Fernando Pessoa)
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